sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ORIGENS DO TÂRAKA YOGA

A VISÃO DA LUZ


INTRODUÇÃO


O GRANDE TESOURO ESCONDIDO* 


De todos os conhecimentos esotéricos da mística Índia, o Târaka-Yoga talvez represente a menor parte de exploração e desenvolvimento pela erudição ocidental. Muito ainda há para ser descoberto em relação ao conhecimento e compreensão do Yoga que escaparam da observação  de historiadores e pesquisadores das religiões em geral. O misterioso Târaka-Yoga é uma dessas lacunas pouco sabidas e, portanto, pouco praticado. 

A palavra sânscrita târaka significa em suas diferentes concepções "aquele que liberta". Nessa escola em particular, o termo define um conjunto específico de experiências yogues que conduzem o yoguin para além do limiar do mundo finito à morada do Incondicionado, do Real. 

Pouco se sabe sobre o desenvolvimento histórico dessa escola yogue, apenas que tenha se estabelecido na época de ouro do Tantra, no final do primeiro e início do segundo milênio d.C., sendo bem provável que em um determinada época, o Târaka-Yoga tenha tido muitos seguidores entre as centenas de milhares de seguidores que buscavam a espiritualidade na Índia medieval. 

O Târaka-Yoga tem sua base na filosofia não-dualista do Advaita Vedânta. Este, trata-se de um sistema de pensamento relativamente complexo vazado em sua forma clássica pelo famoso Shankara Âcharya, que viveu entre os séculos VII e VIII d.C., pode ter sido considerado a corrente principal da filosofia indiana. 

Tem-se notícia a chegada até nós de dois textos em sânscrito que contêm os ensinamentos dessa tradição: o Advaya-Târaka-Upanishad e o Mandala-Brahmana-Upanishad, textos estes pertencentes ao Sukla-Yajur-Veda. O primeiro tem somente dezenove versículos e o segundo possui uma versão mais elaborada com noventa e uma seções. Ambos os textos, datam do período medieval, embora possam ter sido compostos em forma oral muito antes disso. 

No Târaka-Yoga, o meio pelo qual a Consciência Vulgar ou Refletida (Bhâsâ-Bhoda) se converte na  Consciência Pura (Shuddha-Bhoda) contínua do Ser único é uma série de exercícios nos quais os fenômenos luminosos desempenham um papel importante. Essa luz interior é produzida por uma técnica chamada de shâmbavî-mudrâ conhecida tanto no Tantra como no Hatha Yoga. 

Por exemplo, em uma postura sentada confortável e tranquila chamada siddha-asana ou qualquer outra similar, o yoguin fixa o olhar atento na "caverna mística localizada entre as sobrancelhas". Os olhos podem estar abertos ou não de acordo com o praticante e as sobrancelhas ligeiramente erguidas pragmatizando a expressão das três linhas horizontais de Shiva que representam os três mundos fenomênicos da existência condicionada. Em termos Hatha yoguico, isso implica na ativação energética do sexto centro chamado de Âjnâ-chakra. 

Os efeitos luminosos a que se refere as experiências através do Târaka-Yoga não são derivados de nenhuma fonte externa, como o Sol, qualquer corpo luminoso, imagens hipnagógicas vistas antes do sono, etc., mas uma autenticidade e realidade extremamente vívida  e consistente. O que quer que seja que estas luzes representam sob ponto de vista fisiológico, para os praticantes do Yoga são sinais de seu progresso interior. A medida que conseguem esvaziar a mente de todos os registros sensoriais, das imagens e fragmentos de palavras que nascem do subconsciente, sua experiência da luz radiante vai se tornando cada vez mais intensa e real. 

A recuperação de nossa verdadeira natureza ocorre no ato da iluminação (bodhi) por meio do Yoga. o processo que conduz a essa iluminação suprema é sempre o mesmo: a mente  se desliga de todos os objetos externos e se centra no interior, com ou sem a ajuda de um "suporte" qualquer, como um som de poder (mantra), uma potente imagem mental (yantra) e assim por diante. 

Todas as formas de Yoga têm por objetivo central eliminar todas as identidades falsas que a pessoa assume ao longo da vida e colocar o aspirante em contato direto com sua identidade autêntica, ou seja, o fundamento transcendente, o Si mesmo. Quando encaramos o fundamento supremo como universo múltiplo, essa realidade singular é chamada de brahman, quando de um ponto de vista psicológico, na qualidade da essência íntima da pessoa, é denominada de âtman. Brahman e Âtman significam o mesmo Ser onipresente. 

De acordo com o Advaya-Târaka-Upanishad, é possível discernir claramente três estágios da realização nesse caminho yogue. Ele. s são chamados de "três sinais" (tri-lakshya). O primeiro é o dito "sinal interno" (antar-lakshya), o segundo, o "sinal externo" (bahir-lakshya) e o terceiro de "sinal intermediário" (madhya-lakshya). Podemos dizer que eles representam as diferentes fases do shâmbhavî-mudrâ, o "gesto" ou "selo" de Shâmbhu, o Senhor Shiva. 

Obedecendo ao imaginário tântrico e à sua detalhada "geografia" esotérica do corpo humano, o Advaya-Târaka-Upanishhad dá uma descrição concisa dos centros energéticos sutis (chakra) e dos canais (nâdi). O eixo do corpo, que se estende do períneo ao topo da cabeça, é um canal luminoso onde se encontra a misteriosa força chamada kundalinî-shakti. 

Esse "poder serpentino" é descrito como uma luz radiante como a de miríades de relâmpagos. Embora permaneça adormecida na base do duto central chamado sushumnâ-nadî. Essa luminosidade indescritível pode ser vista pelos yoguis quando concentram o olho interior na "janela mental" situada na fronte. Esse ponto tem a denominação técnica de lalâta-mandala (círculo da fronte"). 

O último passo a ser dado nesse conjunto de experiências, é a realização da Realidade Transmental ou não-humana (amanaska), que também é chamada de târaka. Ou seja, a palavra târaka possui um duplo sentido. Por um lado, refere-se aos "sinais" ou experiências visionárias induzidas pelo shâmbhavî-mudrâ; por outro, significa o próprio Ser único e singular. Esse duplo uso e significado pode até confundir o leigo, mas, para o iniciado que chegou à compreensão do fundamento não-dual da existência, é dotado de um significado profundo: os muitos sinais do Ser unitário não são, na realidade, exteriores ao supremo târaka, mas são somente outras tantas manifestações dele, criadas pela mente não-iluminada que é incapaz de perceber diretamente a verdade suprema. 

O târaka transmental é idêntico ao nirvikalpa-samâdhi. Nesse estado, o praticante é o Ser único que aprende de si mesmo por si mesmo. É ai que a odisseia do yoguin alcança seu termo. Não só a sua Consciência transmuta na Consciência-pura como também ocorrem mudanças marcantes na química do corpo. Diz-se que então ele já quase não precisa de alimento e sono, e não obstante é forte no corpo e na mente. 

O estado transmental (unmanî) revela a beatitude (ananda) eterna do Absoluto. Essa beatitude, porém, não é o conteúdo de uma experiência, mas o próprio Ser da pessoa liberta. Como diz o Mandala-Brâhmana-Upanishad (11.5.3-4):   Os yoguins se tornam esse oceano de beatitude. 

Comparados com essa [beatitude absoluta], Indra e os demais [deuses] são apenas moderadamente felizes. Assim, aquele que alcançou a [suprema] beatitude é um supremo yoguin. 


* Texto extraído do livro: "Uma visão profunda do Yoga" de autoria de Georg Feuerstein. Ed. Pensamento. 


Por Swamiji Shankara Saraswati Maharaj